Entrevista Exclusiva com Sandro Gomes da Cerveja Dead Dog

Foto: Funkoandbeer

Podemos perceber pelos últimos posts do nosso blog que investir no ramo de cervejas, em especial no de cervejas artesanais, não é uma tarefa simples.

Por isso, hoje estaremos mostrando um pouco mais essa realidade por meio de uma entrevista com uma pessoa que entende do ramo: Sandro Gomes, um dos produtores e donos da cerveja Dead Dog. Como já era de se esperar, nos encontramos num bar de cervejas especiais, o OpenBeer, localizado no centro de Niterói.



Formação profissional e história com a cerveja



Sandro cursou Astronomia, acabou não concluindo o curso e em seguida estudou Produção Fonográfica. Trabalhou durante um tempo na área de audiovisual para planetários, juntando o que aprendeu nessas duas faculdades. Ele trabalhava no Planetário da Gávea e posteriormente em diversos outros planetários. Após isso fez uma pós-graduação de Divulgação de Ciência e Tecnologia na Fiocruz. Hoje, Sandro tem uma bolsa no Museu de Astronomia e trabalha diretamente com a área da sua pós-graduação, fazendo divulgação de ciência.

A ideia de produzir cerveja começou como um hobby, no final de 2010 quando Sandro fez um mini-curso de cerveja – uma imersão que dura um dia todo no mundo da cevada, lúpulos e maltes sobre como produzir cerveja. “É um dia do cervejeiro. Em navegação astronômica tem isso também, o dia do navegador astronômico, que simula o dia inteiro as observações astronômicas das 9h da manhã, meio-dia, etc.”, compara Sandro.


História do nome da cerveja



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Foto: Cecília Marraschi

“O cachorro morreu. (risos)”, brinca Sandro. O Rogério, seu tutor em cerveja, convidou ele, Alberto e alguns amigos para ir em sua casa fazer cerveja lá. Tinha um cachorrinho de rua que vinha andando e morreu em frente à casa. “Não sei se foi atropelado. A gente ligou pra veterinária e ninguém foi, ele ia morrer”. O Rogério, que é do movimento de cerveja do Rio de Janeiro que já existe há 10 anos, começou a incentivar a produção em Niterói com encontros que aconteciam às quartas-feiras num bar no Centro.

“A galera levava um barrilzinho de 20 L de cerveja, Rogério levava o isopor e botavam lá”. A história do cachorro foi parar nesses encontros e conforme eles iam entregando a cerveja no bar, eram reconhecidos pela história. “‘Ah, essa é aquela do cachorro morto?’ Cachorro morto não ia passar né. Mas Dead Dog sim, aí ficou assim”, acrescenta.



Motivação



Começou como uma coisa caseira, bem normal no início, mas o ponto em que ele e seu sócio viram que realmente iriam começar a vender foi quando eles perceberam que conseguiram agradar uma galera. Outro ponto importante para esse início foi que eles já sabiam exatamente o público que eles queriam atingir com a cerveja, que era uma galera mais voltada para o rock. Quando conseguiram atingir, viram que tinham um produto com potencial, que a coisa ia dar certo.

Então, assim como a maioria, tudo começou como uma grande diversão entre amigos, a diferença é que eles foram investindo à medida que o espaço foi surgindo. Além disso, apesar de terem diversos tipos de cerveja no cenário atual, cada uma tem um foco diferente. Assim como a dele está mais focada para a galera do rock, uma coisa mais suburbana, outras marcas fizeram o seu nome focando mais em uma turma da zona sul como a Hocus Pocus, Three Monkeys, 3 Cariocas...

O bom é que toda essa galera das cervejas se conhece, apesar de terem focos diferentes costumavam fazer reuniões toda segunda num bar no centro do rio, para discutir o rumo das coisas, como eles estavam. Além disso, tem uma certa união entre eles, sempre juntos nos eventos e se ajudando.

A galera que produz cerveja começa a ter uma outra visão: “O que se passou pela cabeça do cara quando ele fez essa daqui? (...) Que malte ele usou? Que lúpulo é esse? Que técnica ele usou?” A questão não é apenas sensorial, vai também da história e motivação da pessoa para produzir a cerveja. “Isso é bem bacana”, complementa.



Surgimento da ideia de entrar no mercado



Tudo começou quando Sandro fez o curso de cerveja sozinho: foi dali que surgiu a ideia. Então, ele decidiu se juntar ao seu amigo Alberto para começarem a produzir. “A gente começou a experimentar (...) fazendo sem muito planejamento, como a maioria faz”, explica. O resultado foi uma cerveja que os agradou bastante. Eles fizeram, então, um teste inicial com algumas pessoas, que também aprovaram. Agora, a maior preocupação era em conseguir repetir a receita. “Esse é o grande barato né, você conseguir fazer de novo”, comenta Sandro.

Quando tentaram de novo, não deu muito certo. “A gente viu que não sai igual até você ajustar tudo, então começamos a acertar todas as coisas”, conta. Quando testaram novamente com seus amigos e conhecidos, acharam o sabor muito extremo e forte. A saída foi reduzir gradativamente esse sabor até chegar numa cerveja que agradasse a todos: “Uma cerveja que não é o que mais se vê por aí, mas que também não é uma coisa muito extrema”.



Passagem da produção caseira para produção profissional



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O aumento da escala de produção não foi uma escolha: simplesmente teve que acontecer. A demanda que surgia precisava ser atendida. Sendo assim, em 2014 Sandro e Alberto começaram a buscar por fábricas onde pudessem realizar uma produção maior. “Fomos a uma fábrica ali em Jacarepaguá e aí o cara falou o seguinte: ‘olha só, quando a cerveja estiver pronta, ela vai sair todinha do tanque e vai pra onde?’ ‘Não sei’. Eu não sabia como guardava e achava que deixava lá.”

Assim, eles perceberam que iam precisar de um plano de vendas: definir como, quando e onde as cervejas seriam distribuídas e vendidas. Alberto, então, decidiu abrir uma distribuidora de cervejas. Em um dado momento, já havia uma pequena rede de clientes se formando. “Ele falou: ‘ah, agora se a gente começar já temos pra onde mandar’”. A fábrica de Jacarepaguá exigia uma produção de 1000 L, a qual eles achavam muito grande para começar. “Normalmente é assim, mas a gente achava muito (...) Não tinha tanto bar com chopp assim na época, hoje isso seria mais fácil”.

Sandro e Alberto então identificaram uma oportunidade numa fábrica chamada Cuesta, em Botucatu no interior de São Paulo. “Lá a gente fazia 500 L, é um pouco melhor. O preço era interessante”, comenta. Apesar disso, era complicado trazer a cerveja pro Rio de Janeiro e armazenar, já que eles não possuíam câmara fria própria e não conseguiram alugar. A solução foi guardar o chopp no quartinho de isolamento térmico da peixaria de um amigo, que era onde se guardava gelo: “Ele guardava o gelo em cima dos nossos barris”.

Depois de um problema na última leva de cervejas, decidiram fazer 1000 L na de Jacarepaguá. Logo depois, migraram para uma nova fábrica: “Era uma época que tinha muita gente fazendo, A Hocus Pocus, a 3 Cariocas, a Donna… e aí eles já ‘tavam’ migrando pra Antuérpia, em Juiz de Fora. A gente aproveitou esse movimento e foi pra lá também. Isso tudo aconteceu no decorrer de um ano, foi tudo muito rápido”.



Mudanças do mercado até hoje



No primeiro ano de produção eles só produziam chopp e só vendiam em eventos e trucks pequenos caminhões usados pra transportar e vender bebidas e comidas. Para aumentar seu alcance e diversificar as vendas, era hora de começar a vender para bares. Porém, tinha um pequeno detalhe: eles precisavam ter garrafas para embalar a cerveja. Depois de algumas tentativas com várias fábricas, conseguiram também na Antuérpia esse serviço. “Quando a gente foi pra Antuérpia a gente começou a vender pra bares. Mas aí vende muito pra bar e acaba pros eventos”, explica.



Média de produção mensal



A produção da cerveja ainda não foi padronizada por mês. Geralmente a cada produção saem 3000 L de cerveja, sendo que o ciclo de produção demora 20 dias. Dividindo por mês, fica algo em torno de 4500 L. “Da última vez foram 5000 L, que a gente fez essa [Dead Dog] e a outra que é a Massacre. Talvez demore um pouquinho pra produzir de novo. Dessa vez vamos tentar produzir 1000 L de cada porque o chopp acabou antes da garrafa acabar. Tem que tentar acertar as duas coisas, é difícil”, conta.

A cerveja ainda é muito dependente dos eventos. Ela cresce muito após eles serem realizados, mas logo depois ela volta para uma escala menor. Além disso, ela também é muito dependente das publicações. Alguns posts conseguem um bom alcance o que acaba ajudando na divulgação e fidelização dos clientes.



Rótulos e estilos



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Eles tem a Dead Dog, uma outra cerveja de café e um lançamento que tem uma coloração bem escura, da cor da Coca-cola. “Deu um trabalho pra ficar igual à Coca-cola”, conta. Acabamos dando o nome dela de Massacre, inspirada numa banda de trash metal aqui de Niterói chamada Taurus, que tem uma música com esse nome. A outra ficou sendo a edição especial da Dead Dog com café, e por isso não deram um nome específico.



“Dead Dog não é uma fonte de renda, é uma fonte de dor de cabeça, dor na coluna...”



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Começar com pouco investimento não é uma tarefa muito fácil, e mesmo a Dead Dog já tendo dois anos e ainda não ser uma fonte de renda, todos os investimentos que eles conseguiram realizar vieram por meio dela. São um dos poucos que tem uma câmara fria própria e um fermentador, tudo graças à sua própria marca. Ou seja, apesar de não estar gerando renda, ela está sendo autossuficiente.



Até que ponto o investimento de fora vale a pena



Outras cervejas começaram na mesma, mas com a entrada de um investidor acabaram tomando um rumo diferente. Tendo uma coisa um pouco menor dá para ter uma relação maneira com os clientes, uma relação bem pessoal. Quando o negócio se expande essa relação acaba sendo perdida, então é muito importante ver até que ponto isso vale a pena, até que ponto você está fugindo do ideal que tinha quando tudo começou, do público que queria buscar. Além disso muitas que entram com esse investimento na busca pela expansão acabam quebrando depois.



O diferencial da sua cerveja



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Foto: Ex-Touro Boutique

Acho que o grande diferencial é estarmos sempre nos eventos, não só como marca mas estarmos lá representando também a marca. A parceria com a galera da comida é muito importante, porque tudo começou nos eventos gastronômicos, tudo isso se deu por meio do incremento da cerveja em determinadas comidas, como por exemplo temos: mostarda feita com cerveja, cebola caramelizada, carne marinada na cerveja, até o bagaço do malte é aproveitado para fazer pão. Eles não investem diretamente nesse tipo de parceria, mas apoiam a iniciativa e estão “ de braços abertos” para essas oportunidades.



Planos para o futuro



Uma das partes mais difíceis de falar, porque depende muito da situação econômica. muita coisa depende da reformulação do Simples Nacional - passaria a colocar microempreendedores de bebida artesanal num regime diferenciado de tributação. Com isso, abrir uma pequena fábrica para a fabricação de cerveja pode ser uma realidade, uma coisa que mudaria totalmente o rumo que eles possuem hoje.

O mais importante é que entrar em grandes redes de mercado está longe de ser o desejado, sempre buscando atender bem os seus fiéis clientes “ (...) amanhã eles fazem por 50% [do preço] e o Thiago (dono do bar, um dos pontos de venda da cerveja) fala que no mercado X tá mais barato do que compra de mim. Prefiro ficar vendendo para o Thiago aqui.”



O que você diria para quem pensa em começar a produzir cerveja?



Quando questionado sobre o que diria para quem pensa em começar a produzir cerveja hoje, Sandro brincou: “[Diria] pra pensar em outra coisa.” E completou, explicando que quem está começando hoje em dia vem enfrentando problemas que não existiam quando ele mesmo entrou nesse ramo.


Aqueles que estão iniciando agora, já devem possuir uma estrutura maior, pois raramente começarão produzindo só 1000 L. Há também exigências para os principiantes, como ter os seus próprios barris, sua própria câmara fria, estar distribuindo o produto, ter uma estrutura para eventos, entre outros. “Tudo aquilo que a gente foi conseguindo aos poucos e negociando, virou um padrão, então eles têm que ter.”


Outra dificuldade apontada pelo dono da Dead Dog, é a falta de espaço nas fábricas para a produção cigana. Por exemplo, a Antuérpia, fábrica onde o Sandro e o seu sócio produzem os seus rótulos, não pode atender um novo produtor nem que este tenha todas esses requisitos, porque ela já não tem mais espaço. "As fábricas consideradas legais para isso estão cheias, as que não estão cheias ou são muito caras ou então são fábricas que começaram agora, que você não tem uma referência para saber se a coisa vai dar certo ou não."



“O importante é ter produto”



Para o Sandro o importante é ter produto. Não basta a marca ser notável, o conteúdo não pode deixar a desejar. Deve haver uma preocupação com ele. “Tem marca que pega uma cerveja de linha de uma fábrica e bota marca nela. Essa turma está perdendo espaço, porque vem surgindo muita coisa própria, original, e é isso que mantém o negócio funcionando. (...) Você vê um cara entrando no evento que está participando, com uma Pilsen que é a mesma de um monte de gente. É exatamente igual, do mesmo tanque que ela sai põem o rótulo dele e o de outro. Fica a dúvida: ele tá contribuindo pra esse movimento ou não?”.

Além do conteúdo da bebida, Sandro se preocupa com a expectativa que a imagem visual da sua cerveja passa. Essa expectativa não pode ser quebrada quando o produto é consumido. "Eu com a minha marca não posso fazer uma cervejinha normal. [Ela] pede uma coisa mais forte. Estou criando uma expectativa pro cara, eu posso até fazer uma Pilsenzinha muito boa, mas não era isso que ele esperava. 'Têm um cachorro morto aí!'"

Quando eles fizeram a cerveja Massacre em parceria com a banda Taurus, a imagem que o nome da cerveja oferece associada com o estilo da banda foi levada em consideração para decidir o que estaria no conteúdo. “É uma banda de thrash metal. Não é uma coisa fácil de ouvir, e o cara queria uma cerveja que fosse tranquila pra beber. ‘Não! Não é fácil ouvir você tocando, não vai ser fácil beber a cerveja, tem que ser na mesma linha.'”



Investimento para novos cervejeiros



Ainda sobre os novos produtores, é preciso ter muito investimento para iniciar, e não só financeiramente, é necessário pensar em tudo. "Tem muita gente entrando pelo dinheiro, porque acha que têm muito envolvido. Realmente têm, você recebe e passa muito dinheiro, então não sobra muito. Mas é uma coisa que atrai."

Na época em que eles começaram, o mercado não tinha tanto interesse nas cervejas artesanais, hoje não, quando você fala disso chama a atenção das pessoas. Elas conhecem mais sobre a bebida, têm uma base maior de comparação e mais opções. "Eu lembro que os primeiros eventos tinha eu e o Contrabando (beertruck), um carrinho que ia com a Hocus Pocus, 3 Cariocas, Three Monkeys e mais uma. Só tinha nós dois no evento, não tinha mais ninguém vendendo cerveja. E agora não, você chega no evento e tem uns 15, 16 [beertrucks]. Então você tem que competir legal."

Para o Sandro, não basta a cerveja ser muito boa, é preciso que os donos estejam presentes nos eventos. Quando a marca manda uma equipe de funcionários a venda dela claramente cai. Por mais que eles sejam bons, não são os donos. Isso deve ser uma preocupação tanto de quem já produz quanto de quem tá no início. É preciso ter essa conversa com os clientes nos eventos, observar como anda a concorrência. "Nos eventos tem muita gente que diz 'eu vim aqui só porque sabia que você tava aqui' e isso é muito legal. A gente não pode perder esses caras, você vai dizer 'eles são uma minoria', mas esses caras propagam a coisa. Eles têm um carinho tão grande que dá maneira que eles falam, eles vendem melhor que a gente."


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Para entender melhor o mundo dos maltes, lúpulos e grãos, confira abaixo os nossos outros textos sobre cerveja:

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